sábado, maio 02, 2009

Sweet Suellen

Conheci uma menina chamada Suellen há algum tempo atrás. Não há muito tempo, mas o suficiente para tê-la como uma das alunas mais marcantes que já tive. Algumas pessoas simplesmente aparecem na vida de alguns para torná-la mais leve. Não levando em conta o esforço e desempenho dessa criaturinha de olhos gigantescamente azuis, ela cativa por ser ela mesma. Lembro-me muito bem da primeira aula que tivemos, na qual ela, com aqueles cilhos compridos e um largo sorriso, disse que achava sem graça meninas andarem maquiadas. Me senti um pouco contrariada, pois faço o possível para manter o hábito de usar alguma maquiagem que alivie a expressão cansada das poucas horas de sono das quais desfruto, mas entendi sua opinião. Uma menina de 14 anos, com toda aquela vida transbordando em tudo que falava, não tinha mesmo motivos para ter opinião diferente. No entanto, Sweet Suellen sentiu pela primeira vez aquela flechinha envenenada de amor que persegue os adolescentes e num lapso de identidade própria, sujou-se com dois carregados contornos de lápis preto ao redor dos olhos. Ela estava mesmo apaixonada, e como se não bastasse aquelas bolas de gude coloridas a saltar-lhe dos olhos, ela usou de um dos artifícios femininos mais injusto, para tentar chamar a atenção de sua presa. Chamo de um artifício injusto porque nos faz acreditar que podemos mesmo ser diferentes, e não somos. Prova disso é uma boa olhada no espelho após um banho relaxante. Lá estarão as rugas, as olheiras, as marcas de expressão. Elas se fazem desaparecer por um determinado tempo, mas não nos deixam livres. Eis que o estojo de maquiagem de Suellen se vê menos cheio, mas não a vejo mais feliz. Em vão gastou-se o pó e o lápis preto. Foram alguns momentos de ansiedade e esperança de um amor recíproco. Mal sabia ela que já se amavam ambos. E eram amigos. Companheiros. Com a água lavou-se a pintura e com o tempo, a dúvida.
Hoje, Sweet Suellen está com 17 anos e suas bolas de gude azul celeste ainda brilham tanto quanto seu sorriso. Já não se pinta, nem confunde amigos com amantes. Continua, porém, a mesma criaturinha rara e amável, que pensa ser uma criaturinha comum.

sexta-feira, novembro 07, 2008

A modernidade


Enfim, nos encontramos em uma época na qual quase tudo pode ser resolvido por meio de eletrônicos. Às vezes, até mesmo nossa solidão parece facilmente se dissolver no ar enquantro entre um click e outro nos comunicamos com alguém ou simplesmente matamos o tempo bisbilhotando aqui e ali.
Os computadores e celulares trouxeram consigo os benefícios, mas também, os malefícios.
Nos tornamos seres mais individualistas, mas que "amamos" a todos, por isso deixamos nossas páginas repletas de recadinhos, de fotos, e adicionamos como amigos aquele a quem nunca vimos.
Nos preocupamos em desejar a todos "uma boa semana". No entanto, quando passamos por alguém na rua sequer levantamos a cabeça para dizer "oi". Sequer dizemos "obrigado" quando alguém nos faz uma gentileza.
Parabenizamos os aniversariantes com mensagens quase que vazias, que são geralmente respondidas automaticamente.
Fazemos parte de grupos, mas é sozinho que ficamos do outro lado da tela por horas a fio, porque temos muitos amigos com quem trocar mensagens. Ao desligar o computador, o sol já se foi, e todos os que chamamos amigos não foram vistos, ouvidos ou tocados.
Não há necessidade de se preocupar com isso, já que os mais íntimos estarão apenas a um toque de celular distante.
Enquanto isso, nos divertimos batendo fotos e fotos. Fazemos questão da pose básica -antigamente banida pelo desperdício de dinheiro - aquela na qual se fica diante de um espelho e você aparece, magnânimo e poderoso, registrando sozinho sua imagem narcisista.
Assim, temos tudo o que queremos ao nosso redor: a tecnologia e os amigos para todas as horas.
Sinto, porém, por termos perdido o velho hábito de fazer visitas, de sentar para um café, de tomar um sol enquanto se caminha conversando.
A modernidade nos possibiltou um milhão de amigos, mas também, horas de solidão.

segunda-feira, março 24, 2008

A máquina de costura


Faz tempo, muito tempo mesmo que dei meus primeiros pontos. Ainda tímidos, coitadinhos, ensaiavam uma figura simples num pedaço de pano qualquer. Tamanha foi minha insistência e persistência, que ainda sem tanta competência, atrevi-me a lidar com novas agulhas, novas cores, novas linhas.


Bordei alguns pontos diferentes, com os quais não senti muita afinidade e os deixei um pouco de lado. Acresci a delicadeza do crochê a um trabalho e outro, brinquei com agulhas de tricô.


Demorei um bocado, mas dei-me conta finalmente que para um trabalho com mais esmero seria necessário um pouco de sofisticação. Olhei para um lado e outro e do lado de dentro da vitrine estava ela a zigue-zaguear meu coração. Atração fatal e amor para a vida inteira. O manual, porém, muito complexo.


Ainda assim, enfrentei, afinal, não poderia ser tão difícil. “Sorte de principiante”, diriam logo que vissem meu primeiro trabalho. Contudo, com apenas uma bainha mais ou menos reta não há senão panos-de-louça.


E não me dei por satisfeita. Aprendi a trocar as agulhas, a linha da lançadeira, a aplicar o zigue-zague. Investi em matéria-prima: comprei tecidos, moldes, tesoura e fita métrica. Medi, calculei, cortei. Fiz o zigue-zague para o tecido não desfiar, juntei as partes, deixei a tal bainha impecável.


A grande frustração foi quando percebi que que apesar de ter bordado e juntado as peças e decorado o manual de cabo a rabo, eu sequer sabia como fazer a casinha de um botão.
Em vão desfiz-me de teus braços
E teu carinho
Vi um futuro tranqüilo e sozinho
No qual o que ouvi foi só meus próprios passos
E decidi então mudar meu rumo
E dar de vez o nó nesse laço
Hoje, confesso
É impossível seguir sem teu abraço!

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Enfim, acordada

Como todas as palavras, adormeci.
Foram alguns longos meses de sono profundo,
porque já não bastava a luz do dia
para manter-me acordada.
As palavras foram ditas, repetidas e escritas,
todavia, faltou-me muito mais que isso.
Dei-me por conta que não posso ser mais eu,
simplesmente em palavras,
porque a palavra se perde no ar
e eu não quero estar perdida.
Quero estar como as pedras da praia,
que têm suas formas modificadas pela ação da natureza,
mas que continuam lá.
Em uma nova era, serei mais que palavras:
serei eu meus ossos, minha carne, meus desejos e sentidos.
Serei quem você e eu talvez sequer conheçamos.

sexta-feira, agosto 17, 2007

As vozes

Enquanto a voz passiva sucumbia em meu ser
A voz ativa dizia que era tempo de fazer uma análise,
Sintática , morfológica, que fosse ela
Mas enfim, uma análise.
Pensei naquele pronome possessivo,
Na inferioridade, na superioridade,
Na igualdade,
E também, nas flexões,
nos adjetivos que perseguiam
minhas noites inquietas.
E minha voz, reflexiva, não cessava perguntar,
Entre numerais,
Cardinais ou ordinais,
Qual deles deveria, em meu infinitivo, escolher?
Tudo era o demonstrativo
De que tudo estava indefinido.
Neste tempo simples,
Meu retrato é defectivo,
Falta nele uma conjugação,
Ou algumas quem sabe.
Quiçá sou apenas uma radical,
Perdida em uma gramática qualquer,
Esquecida em uma prateleira empoeirada.

quinta-feira, julho 26, 2007

Meu jeito Amélia de ser


Lembranças da infância mostram minha mãe fazendo tudo e o resto barulhento da família zanzando de um lado para o outro, comendo, sujando, brigando, aglomerando. Mesmo entre fios e agulhas de crochê, eu sonhava com uma vida moderninha, de profissional independente, que não precisaria se preocupar com o almoço ou com a casa limpa.

Caminham os anos em passos largos e a cada banho que tomo, deixo mais exposto meu jeito Amélia de ser, enfrentando os olhares de quem acha que ter uma vida mais doméstica é antiquado.

Já pensei assim também e por isso não reprimo. Ao invés disso, ocupo minha cabeça com preocupações financeiras do que e como adquirir o que ainda falta para trazer mais aconchego ao meu habitat.

No supermercado, o tempo é curto para as compras e eu nem sei onde fica a seção fast food. Tenho um caderno de receitas simples, que uso como convite aos amigos.

Além disso, sempre arrumo a cama antes de sair de casa e as toalhas de louça com barrados de crochê são passadas antes do uso.


Ser Amélia me faz muito feliz!

quarta-feira, julho 25, 2007

As canecas de todos os dias


Tornei-me uma colecionadora de canecas. Atraída pela forma, cor e beleza, adquiri mais uma. Conclui que canecas fazem parte de um conjunto essencial de sobrevivência, pois da mesma forma que ofereço um gole de água a um amigo, é a caneca na minha mão que me dará coragem para bater à porta daquele vizinho pedindo um pouco de açúcar para terminar o bolo. Quem sabe ele não troque o açúcar pela fatia de bolo e tome um café comigo na tal caneca. Nos dias menos coloridos, pouparei meus cristais e servirei um vinho na caneca, que em um gole só se esvaziará. Também nela deixarei uma água quente com ervas medicinais para livrar-me de uma enfermidade. Com certeza, se alguém aparecer de supetão, não me importarei em vê-la cheia de cerveja. Enfim, canecas são companheiras perfeitas para todas as horas!

terça-feira, julho 24, 2007

Como a maioria...


Como a maioria, sonhei com um amor que me acompanhasse pela vida toda. Também como a maioria, apaixonei-me loucamente, vivi um amor enquanto ele existiu. Decepcionei e fui igualmente decepcionada. Apaixonei-me outra vez e outra, outra, outra... porém, a intensidade nunca foi a mesma.

Assim, passei a questionar a existência de um amor que sobrevivesse às rugas, aos cabelos brancos, ao mau humor e pouco dinheiro. Como a maioria das pessoas, busquei provas de que tal amor é impossível e como a minoria delas fiquei surpresa ao deparar-me com casais de óculos, com pouco ou sem cabelo algum, gorduras localizadas, pele flácida, de mãos dadas, sorrindo felizes, apenas por terem um ao outro como cúmplices.


Quisera que a minoria dos amores-para-sempre se transformasse, um dia, na maioria!

segunda-feira, julho 23, 2007

Amargamente independente


A garrafa térmica vazia dentro do armário e a cafeteira seca e abandonada no canto da pia da cozinha. Libertei-me mais uma vez. De um lado tornei-me feliz e independente, do outro, independente e amarga.

Entre alguns grandes prazeres da vida, tomar vagarosamente uma xícara de café é um deles. Às vezes, mais de uma, dependendo da companhia. No entanto, café é um veneno para minha voz, da qual uso e abuso, enquanto eu teimar em lecionar. Tratei comigo mesma que me renderia aos apelos do cheiro e do gosto somente aos fins de semana, como uma técnica de relaxamento.

Sobrevivi. Sinto vontade e saudade, mas deixou de ser essencial no momento que eu decidi. Os outros prazerosos venenos da vida continuam e serão mantidos até que eu decida não precisar mais deles.

Triste. Infinitamente triste. Saber que posso ser sozinha, que coloco ou não meu nariz em qualquer lugar, que não devo avisar quando tranco a porta pelo lado de fora, que de manhã eu não tenho que levantar e preparar o café da manhã para alguém.

É o mundo moderno, frio, apavorante.

domingo, julho 22, 2007

Amor moderno


Há quem diga que o amor evolui com o tempo, a partir de uma grande paixão. Vai-se o desejo, fica a necessidade de estar-se perto, mesmo que a voz tenha se alterado, mesmo que a cor dos cabelos já não seja a mesma e o tremor do corpo não seja mais pelo mesmo motivo.

Uma vontade de agradar ao outro, fazê-lo feliz, completo. A visão de uma longa estrada sinuosa percorrida ao mesmo tempo por mais de uma pessoa. Isso é amor.

Todavia, nossa constante capacidade de criação inventou o amor moderno: apaixonante, embora friamente simples de se destruir. Apresentação, entrega, convívio, início e fim dos problemas. São essas as etapas do amor moderno, no qual todos amam muito a todos, mas ninguém ama ninguém realmente.
No primeiro obstáculo a ser vencido, esse amor não passa na prova e pronto, quando na verdade, então deveria ramificar-se de fato e tornar-se cada vez mais forte e profundo.

Compartilhando

O que exatamente se entende do que se ouve e o que se ouve do que se entende. Em que se baseia uma comunicação. Um olhar. Um sorriso. Uma palavra. Um gesto. Um tom de voz. O que realmente se quer dizer é o que nossas bocas murmuram, para que não seja ouvido. Aquilo que se quer dizer de todo o coração é o que na maioria das vezes não é dito, mas sentido.

Lágrimas correm pelos olhos e dos olhos, ofegantes, sem dizer por que vieram ou para onde vão. Aquele sorriso trêmulo, tanto intimidado quanto intimidante, não tem muita certeza do que fazer no momento de sua estréia, então fica ali mesmo, sem um papel certo, entretendo a audiência, que deveria apenas ouvir, mas que vê, que fita os personagens nos olhos e aguarda inquieta por uma ação, um gesto de bravura e coragem. Uma palavra confusa e cambaleante que sai arrastando os pensamentos pelos cabelos, sem dar-lhes ao menos tempo para que se organizem.

Uma orquestra que toca sem um maestro uma sinfonia singularmente inédita, uma melodia de se guardar na memória mas jamais de se transformar em partitura, para que continue sendo única, inigualável.

Comunicar-se é fazer teatro, escolher um palco sem cobrar ingressos e atuar como nunca. Perceber a platéia vibrar a cada minuto. Usar umas palavras ou outras quando preciso, mas quase nunca é. Comunicar-se em palavras é como assistir a filmes dublados: percebe-se a história, entende-se, mas não se compreende, porque não cabe na palavra o que se sente. O que se sente flui nas veias e só jorrando sangue para todos os lados seria possível contaminar a todos.

Compartilharíamos, assim, tudo. Mas em palavras, dividimos apenas, não compartilhamos.

sábado, julho 21, 2007

Seja você mesmo enquanto dorme!


Foi-se o tempo que ser você mesmo tinha o significado real das palavras. Atualmente, ser você mesmo significa ser você, o que o seu cônjuge deseja que você seja, o que o seu patrão quer que você seja, o que as pessoas esperam que você seja.

O horário que se tem para ser você mesmo se resume nas poucas horas que se mantém os olhos fechados e a boca aberta...

quinta-feira, julho 19, 2007

No fundo, você sabe


Em um momento de ociosidade provocada, procurei ouvir com mais atenção algumas das músicas que me são eternas. Uma tradução aproximada dizia algo como “talvez não pense que eu me importe com você, mas sabe que no fundo eu me importo de verdade”. Reescrevi o trecho em um pedaço de papel e o sobrepus ao número de óbitos que diariamente são contados no jornal. Pensei em mim mesma e nos que me rodeiam e odiei profundamente a constatação final. Ela prova que somos capazes de amar silenciosa e secretamente, deixando para o outro o papel de adivinhar o sentimento que se tem. Tudo porque o ser humano insiste em complicar o que pode ser tão simples e que se revela no ato da morte, quando já não há como desfrutar aquilo que se cultivou. É doloroso e cruel passar uma vida inteira usando da intuição, para se ter a certeza apenas no fim.

segunda-feira, julho 16, 2007

Vivendo um Rascunho



Entra ano, sai ano, entra ano, sai ano e entre meio tantos desejos, há sempre quem deseje a todos uma vida passada a limpo. Parei para pensar sobre isso várias vezes e me culpei terrivelmente por não ser um exemplo de organização. Assim, passei a me policiar e me culpar pelo que havia feito. Vai que em um dia qualquer chegue a minha vez de bater as botas e deixarei minha vida virada de cabeça para baixo, com tarefas a serem feitas, palavras a serem ditas, amores secretos, desejos infames, angústias, momentos íntimos, tudo ali, misturado, um por cima do outro, algumas passagens simplesmente rasuradas. Vi-me em um beco sem saída. E agora, José, quem vai terminar o que comecei e não fiz direito?

Acidentalmente, hoje remexi em uns arquivos antigos no meu computador e encontrei um com o título “rascunho”. Era o relato do meu aniversário de 26 anos, o qual comemorei antecipadamente em família e ao final do encontro me senti como se tivesse querido adiantar o relógio pela incerteza de nem estar aqui no dia certo. Não cheguei a reler o que escrevi, até porque nunca cheguei a terminar a história, mas me deu clique na hora.
Lembrando disso e de muito mais, decidi por não passar a limpo minha vida. Sábia decisão. Para admiradores de boas obras, é sabido que um original é sempre mais valioso, pois contém informações que às vezes são lapidadas para o agrado do público. Alguns escritores de renome se reservam o direito de alterarem suas obras de edição para edição se necessário, o que comprova que uma obra nunca chega de fato ao ápice da perfeição. A perfeição, para mim, é sem sal e sem pimenta. Coisa de quem sofre de pressão alta.
Eu sofro de desorganização, de uma vontade imensurável de fazer quinhentas mil coisas em um minuto só e, portanto, não deixar uma vírgula fora do lugar ou esquecer de fazer um parágrafo, colocar reticências onde deveria estar um ponto final é quase impossível... Hei de fazer tempo para tudo e para todos, mas não hei de ser perfeita. Hei de ser intensa, original, autêntica. Quero um rascunho de vida, onde se possa ler o meu passado negro e a vida laranjada que pinto todos os dias, assim como aquela cor-de-rosa que me virá em um futuro não muito distante.

Quero que meus leitores tenham vasto trabalho ao estudar minha obra de vida e que se vejam em encruzilhadas ao ler meus pensamentos, não por serem difíceis, mas por conterem em si possibilidades diversas. Deixarei minha obra mais rica: um rascunho do que sou com tudo de bom e de ruim, pois o que é perfeito jamais foi visto, embora tenha se ouvido falar.

terça-feira, junho 12, 2007

Dia dos Namorados


O apelo comercial é grande, mas será que do alto de nosso egoísmo exagerado, seríamos capazes de dedicar um dia entre trezentos e tantos outros, à alguém que nos é importante, sem ter lido sequer uma propaganda de promoção no caminho que fazemos diariamente?


Infelizmente, acredito ser mínimo o número daqueles que, ao deitar a cabeça no travesseiro, fazem um replay de seu dia e se sentem felizes a ponto de agradecer seja lá a quem for pela dádiva de poder compartilhar sua vida, ao invés de transformá-la em um monólogo.

Mesmo assim, quando compartilhamos o que temos, muitas vezes nos sentimos frustrados por não encontrar no outro a perfeição que pensamos refletir tão claramente. Pois, em um dia como hoje, deveríamos antes de mais nada, avaliar nossa conduta para saber se somos dignos do carinho recebido e, caso o parecer não seja positivo, encarar uma forte mudança e refletir um pouco sobre a felicidade daquele que nos acompanha.

Deveríamos estabelecer como meta um melhor Dia dos Namorados no próximo ano e começar, desde já, a fazer o outro feliz, para que finalmente todos os “eu-te-amos” alcancem o sentido real de serem ditos.

Feliz Dia dos Namorados!

domingo, maio 27, 2007

O tilintar das palavras e moedas


Assistir a um Festival de Dança do Ventre é uma das coisas que nunca pensei em fazer na vida, afinal, vivo em uma cidade de povo e tradições germânicas. Para minha surpresa, ontem tive a chance e o prazer de sentar por mais de duas horas enquanto moças se revezavam no palco entre fogo, lenços coloridos e miçangas.

Senti-me imóvel diante de quadris tão balançantes ao som de palavras que desconheço. Pensei no pouco que sei sobre a cultura árabe, no quanto as mulheres são desprezadas e no entanto, são também um símbolo de poder. Não sorriem muito, não dirigem a palavra a um homem olhando-o nos olhos, não mostram seus cabelos para outro que não seja seu esposo. Simbolizam o poder econômico de quem as vende, compra e coleciona.

As mulheres árabes são ensinadas desde cedo a serem submissas e agradar a quem lhes têm. Agradam aos seus donos com seus dotes domésticos, religiosos e corporais, que são vistos por entre véus coloridos e cultuam suas formas físicas no intuito de mostrar estão prontas para gerar outras vidas.

Eu, imóvel, de quadris duros e movimentos descoordenados, me vi entre elas, fazendo de meus pensamentos os véus que balançavam, minhas palavras tilintando como as moedas e miçangas em seus cinturões e minhas idéias eram a música ritmando cada passo. Me libertei. Vi o colorido se dissipando em emoções.

Entendi que enquanto algumas dançam, outras escrevem e se expressam da mesma maneira. Mostram sua verdadeira arma de conquista, como sentem o mundo e como desejam ser sentidas.

Em meu jeito árabe de ser, também faço questão de agradar de todas as formas a quem me ama, porém é preciso lhe olhar nos olhos e usar a submissão apenas como fetiche. Quero ser comprada com beijos incessantes e poder balançar meus cabelos enquanto caminho, mostrando a todos meu riso de felicidade e alguém que deseje tanto quanto eu os filhos que posso gerar.

Estar sempre entre meus véus, tilintando minhas moedas e atraindo quem se encante com os meus quadris, é minha forma sutil de performar uma dança do ventre e só quem tem um certo talento é capaz de reconhecer e apreciar.

Notícias amanhecidas



É bom ter como hábito diário a leitura de um jornal. Estar bem informado pode fazer diferença até mesmo naquela conversinha básica de ponto de ônibus, que fica menos sem graça se não for sobre o tempo nem sobre o atraso dos ônibus. Pode se falar da última separação ou casamento entre artistas, sobre política, economia, filmes novos no cinema e até mesmo sobre a seção de comentários do leitor. As opções são muitas.





Ainda assim, é de causar indignação a quantidade e freqüência de erros ortográficos e de informação. Outro dia, um colunista disse que “os PMs não houvem rádio”. Nomes, cidades de origem, datas e até a coluna de aniversariantes apresentam erros, pois foi mesmo fotos com as respectivas mensagens de aniversários são trocadas. É fácil manter o raciocínio de que tudo acontece muito rápido em um jornal e que algo escape, porém, é sábio relembrar a frase popular que afirma que quem faz mal feito, faz duas vezes. Algumas das correções são feitas nas edições seguintes e outras passam despercebidamente.






Fica no ar a dúvida quanto a qualidade dos profissionais que aparentemente apenas correm os olhos por onde se fixarão os olhares dos leitores. Não dar devida atenção no que se faz é também menosprezar o tempo, a inteligência e a atenção de quem lê. Conclui-se que talvez a melhor maneira de manter-se bem informado seja ler o jornal de terça para saber as notícias de segunda, que já terá as esperadas correções...

sexta-feira, maio 25, 2007

Reciclar é preciso


Pouco a pouco, a conscientização tem se feito concreta, ainda que parcialmente. As coletas de lixos recicláveis estão sendo adotadas nas cidades, deixando nosso mundo um pouco melhor. Com esse pensamento, tornei mais leve a carga de uma amiga, que me deixou uma mensagem com um pedido de socorro. Ela dizia estar um lixo.

“Se for para ser lixo, que seja reciclável”, foi o que lhe respondi. Poderia ter lhe sugerido ser um lixo orgânico, mas não achei que vê-la coberta de terra servindo como adubo seria propício a alguém que ainda tem tanto o que fazer.

Esse alguém ainda há de quebrar-se em muitos cacos, há de se deixar amassar pelas pedras que estão pelo caminho. Esse alguém há de guardar muitas informações, muitas lembranças, muitas palavras que irão borrar com a chuva. Esse alguém há de perdurar por anos e anos antes de retornar à natureza...

Vidro, alumínio, papel, plástico.


Faça a sua parte, recicle!

segunda-feira, abril 02, 2007

Pode conhecimento ser demais?

A Língua Portuguesa, assim como muitas outras, deriva do Latim. Obviamente, desdes os tempos antigos, ela tem sofrido alterações, o que a caracteriza, hoje, como uma língua harmoniosa e repleta de riquezas, influenciada por diversos fatores.
A complexidade existente na norma culta é reponsável pelos pensamentos dos próprios falantes nativos admitirem que é uma língua tanto quanto difícil, uma vez que nem os mesmos dominam as regras impostas pela gramática. Isso, porém, também acontece em qualquer outra língua, embora quase nunca seja levado em conta.
O estudo da Língua Latina pode ser considerado raro atualmente, no entanto, isso não lhe deveria tomar a importância. Entender ou ter noções de Latim, torna o aprendizado de certas línguas muito mais fácil, pois a organização de algumas estruturas ou o significado de alguns vocábulos finalmente passam a fazer sentido.
Surpreendente é o raciocínio de alguns professores defenderem a inutilidade de uma língua morta como essa, da mesma forma que leigos não entendem o porquê de se estudar Física ou até mesmo Português, quando pretendem trabalhar com Matemática. O fato de pessoas terem opiniões diferentes é justo, aceitável e indiscutível, porém, não é compreensível vir de um professor que conhecimento em determinado assunto é demais e inútil. Ora, se professores não incentivarem o estudo e o aprendizado, seja ele qual for, quem o fará?